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Em 28 de outubro, ao ganhar as
eleições brasileiras, Luiz Inácio da Silva (“Lula”) dixo à multidom e ao mundo:
“Hoje, o Brasil votou para mudar. A esperança venceu o medo”. Esta frase
encerra exactamente o que aconteceu, e sublinha a importáncia deste evento num
mundo em que, designadamente no último ano, o medo estava vencendo a esperança
em quase toda a parte.
O director do jornal uruguaio Brecha
saudou esta eleiçom como “o maior triunfo da esquerda latino-americana em toda
a sua história”, umha rejeiçom do “gosto amargo das promessas dos gurus do
livre mercado”. A reacçom das forças populares por toda a América Latina foi de
alegria e assombro. A reacçom das forças do neoliberalismo e o espírito de
Davos foi de incerteza quanto a que fazer. Tagarelárom. Explicárom a vitória
polo facto de Lula e o sua organizaçom, o Partido dos Trabalhadores (PT), “se
terem movido para o centro”. Mas nom estám mui certos disso, umha vez que os
líderes políticos e os meios de comunicaçom do Norte estám a fazer declaraçom
trás declaraçom, afirmando que Lula deve mover-se para o centro.
O único acontecimento
comparável na última década foi o triunfo do Congresso Nacional Africano na
África do Sul em 1994. Umha olhada ao que ali ocorreu pode conferir-nos algumha
compreensom do que está a acontecer no Brasil. Permitam-me começar com aquilo
que é comparável nas duas situações. Primeiro, ambas representam a vitória de
forças progressistas, após umha luita mui prolongada, no estado economicamente
mais poderoso da sua regiom – umha vitória que parecia mui improvável dez anos
antes. De facto, tam só três meses atrás, a maioria dos comentaristas prediziam
que Lula ganharia na primeira volta e seria derrotado na segunda. Em lugar
disso, ganhou com 61% de votos.
Na África do Sul, a chegada ao
poder do ANC deu fim à era do apartheid e estabeleceu o governo da maioria. No
Brasil, a chegada ao poder do PT significou a eleiçom de um partido de
trabalhadores num país em que a classe média retivo sempre as rédeas do poder.
Em ambos os casos, a eleiçom foi esmagadora. Em ambos os casos, a transiçom foi
pacífica e sem oposiçom do exército que, nos dous países, tinha jogado um papel
político central (e reaccionário).
Em ambos os casos, esta
transiçom política foi possível nom somente polo apoio popular ao partido
ganhador mas também por cruciais conversas de bastidores com alguns sectores
decisivos do mundo empresarial que dérom apoio tácito ou mesmo activo à
transiçom em troca de algumha forma de garantia de que o novo governo
respeitaria polo menos algumhas das regras do mundo financeiro que essas
camadas empresariais consideram essenciais para a sua sobrevivência. No caso da
África do Sul, oito anos depois, esse pacto continua mais ou menos vigente. No
caso do Brasil, podemos esperar o mesmo.
Por que foi feito tal acordo?
Desde o ponto de vista das camadas empresariais, o acordo produziu-se porque
era útil um compromisso. Temiam que poderiam perder muito num enfrentamento com
um governo de esquerda, mesmo que afinal conseguissem conduzi-lo à sua
derrocada. Viam o próximo governo (ANC, PT) liderado por pessoas capazes e
inteligentes que teriam apoio popular e cujo esforço reformador, embora
radical, seria “razoável”. No que di respeito às forças populares entrantes,
elas sabiam que seriam eleitas para a melhoria da situaçom económica da gente
comum, e temiam que umha retirada radical do investimento das grandes empresas
do seu país produzisse o contrário, e bem aginha. Para ambas as partes, foi um
acordo pragmático.
A questom era e continua a ser:
valia a pena desde o ponto de vista das forças populares? Tanto no ANC como no
PT, havia três grupos no momento da ascensom ao poder: um grupo de pessoas
pragmáticas, pouco coagidas por compromissos ideológicos, que julgava a chegada
ao poder e a permanência nele como a razom principal das suas políticas; um
segundo grupo, mais comprometido com a ideologia histórica do movimento, mas
que também considerava a necessidade de manter unido o partido se quigesse
lograr sequer parte dos seus objectivos; e um terceiro grupo, bastante pequeno,
disposto a condenar e a opor-se a qualquer desvio de umha ideologia de esquerda
tradicional.
É o segundo grupo o que escolhe
o caminho mais estreito, e o que tem maior dificuldade em manter o seu alcance
e a sua influência. Na África do Sul, este segundo grupo tem umha base
institucional nos chamados aliados do CNA, que som a federaçom sindical
(COSATU) e o Partido Comunista da África do Sul (SACP). Oito anos depois, o
COSATU e o SACP com freqüência som publicamente críticos com o governo mas
continuam a ser aliados seus. Continuárom a ser influentes. No Brasil nom
existe um equivalente formal, embora o Movimento dos Sem Terra (MST) poda jogar
esse papel. Em ambos os países, o terceiro grupo foi até agora extremamente
pequeno e relativamente irrelevante.
Existem obviamente diferenças
entre ambas as situações. Quanto o ANC chegou ao poder em 1994, a
economia-mundo estava numha situaçom relativamente melhor e o governo
sul-africano nom tinha carregado com compromissos com o FMI. Além disso, a
luita contra o apartheid tinha umha ressonáncia mundial que tornou Mandela umha
espécie de herói da cultura mundial. Tanto o PT como Lula som menos conhecidos,
polo menos fora da América Latina. E embora Lula seja umha personalidade mui
atractiva, talvez nom iguale o carisma mundial de Mandela.
Mas, por outra parte, Lula e o
PT tém outras cousas do seu lado. A América Latina está virando para a esquerda
como pode ver-se polo que está a passar-se na América Central, Equador, Peru,
Bolívia e Argentina entre outros lugares. Há um novo talante espalhando-se polo
continente, e é o talante do espírito de Porto Alegre. Lula encarnou esse
talante desde o princípio, e agora está em posiçom de apoiá-lo com os recursos
e o prestígio do governo brasileiro.
Se alguns sectores empresariais
brasileiros estám a apoiá-lo nom é apenas como um pis aller, mas também
porque esperam que reforce a capacidade das empresas brasileiras para enfrentar
as multinacionais controladas polos EUA. Esperam que reforce o Mercosul e seja
umha força de resistência construtiva a Área de Livre Comércio das Américas
(ALCA ou FTAA). Se os militares brasileiros nom se sentem descontentes de que
tenha sido eleito, é porque som fortemente contrários ao Plano Colómbia,
apoiado polos EUA e esperam que ajude a deter a extensom da violência.
Lula no poder nom é Sendero
Luminoso nem a Revoluçom Cultural chinesa no poder. O PT será um poderoso
regime progressista no país mais importante da América Latina, um dos países
economicamente sobranceiros do sistema-mundo, umha força trás a qual a esquerda e o centro-esquerda
latino-americanos podem unir-se nos anos futuros. Pode que Lula seja mui
prudente a respeito da política financeira do governo brasileiro. Mas pode
contodo erigir-se como umha barreira real frente ao impulso neoliberal na América
Latina e no mundo. Nom só a esperança venceu o medo no Brasil, mas a esperança
gera esperança por todo o mundo. Enquanto o mundo encara a invasom
estadunidense do Iraque e a conseqüente agitaçom caótica que provocará, a
eleiçom de Lula é um sinal de que podemos contra-atacar.
Immanuel Wallerstein
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Traduçom: José Manuel Outeiro
G.