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Bush : “O Medo Venceu a
Esperança"
O Sr. Bush abriu-se caminho: nas eleições estadunidenses,
no Conselho de Segurança da ONU. Com a vitória de Lula, a esperança venceu o
medo. Com a vitória de Bush, o medo venceu a esperança. Na administraçom do Sr.
Bush reina agora a satisfaçom. Pensam que podem levar a cabo completamente o seu
programa. Contam já com um Congresso e um Conselho de Segurança que seguirá
acompanhando os planos de Bush. Acham
que tém encurralado Saddam Hussein.
Quais som os seus planos? O que interessa notar é que tém
um plano a curto prazo e um plano a longo prazo, mas carecem absolutamente de
plano a meio prazo. O seu plano a curto prazo para os Estados Unidos é
satisfazer os seus três grupos de eleitores – os conservadores económicos, os
conservadores sociais e os marulos militaristas. Os conservadores económicos
tém interesse sobretodo em duas cousas: impostos mais baixos e reduçom das
limitações que carregárom sobre eles as preocupações ambientalistas. Os
conservadores sociais tém interesse na legislaçom da sexualidade, em penas mais
severas para a delinqüência, e na liberdade para possuir e empregar armas. Os
marulos militaristas tém interesse em aumentar o poder estadunidense e usá-lo.
Esses objectivos a curto prazo podem ser implementados
fazendo cortes permanentes nos impostos,
pondo fim ao imposto sobre a herança, designando juízes de direita para
os tribunais federais, e invadindo o Iraque. Agora que eles tém a energia para
fazer estas cousas, farám-nas. O único que se pode dizer sobre a administraçom
Bush é que nom esbardalha. Fam apenas as concessões que se vem absolutamente
obrigados a fazer; ou entom abrem-se
caminho arrasando todas as florestas. Sem dúvida haverá alguns obstáculos no
seu caminho – algumha dificuldade ocasional com o Congresso (um ou dous senadores
problemáticos, alguns republicanos “moderados” duvidando acerca de determinados
projectos), um intento por outros países de interpretar futuras acções de
Saddam Hussein de forma menos biliosa que a versom que ouviremos de Condoleeza Rice. Mas a resposta aos obstáculos
da administraçom Bush é acçom brutal para superá-los. E, como isso parece ter
funcionado este novembro, carecem de estímulos para mudar as suas formas.
Mas porque funcionou isso? Parece óbvio que a resposta
inevitável é o medo -os medos do povo estadunidense, os medos do resto do
mundo. O 11 de Setembro abalou o povo estadunidense. Mas se foi assim, é porque
já estavam aflitos, e o 11 de Setembro simplesmente cristalizou um sentimento
vago numha preocupaçom premente. O povo estadunidense tem medo dos terroristas;
medo dos Mussulmanos; medo dos estrangeiros. É o sentimento de que os EUA nom
som tam fortes como já fôrom, nem tam
respeitados como já fôrom, nem tam reconhecidos como já fôrom. É o medo de que
o padrom de vida americano esteja em perigo -o medo à inflação e à deflação, o
medo de perder o emprego. É o medo de que, vivendo mais tempo, já nom vivam tam
bem, devido a que a assistência médica para a parte da populaçom mais idosa é
muito mais fraca do que a gente espera e deseja. O Presidente Bush responde a
este medo, nom dizendo que nom há qualquer problema, mas dizendo que há um
problema para o que ele tem um remédio: acções decididas, duras. A
administraçom Bush exsuda confiança em si própria e isso atrai as pessoas
temerosas, o suficiente ao menos para quem dá o seu voto à dureza.
Certamente, nada disto explica como conseguírom os EUA
umha votaçom 15-0 na Conselho de Segurança para a sua resoluçom –que, com ter
sido um pouco mitigada sem dúvida, permite contodo os EUA avançar e, no seu
momento, invadir o Iraque. O que explica esta votaçom também é o medo. Mas nom
é Saddam Hussein quem inspira esse
medo. Nom há um único membro do Conselho de Segurança que, na ausência da
ofensiva polos EUA, tivesse posto este assunto na mesa. Nom há um único membro
que acredite realmente que Saddam Hussein suponha umha ameaça de curto prazo à
paz do mundo, ou que pense que a acçom contra o Iraque seja umha preocupaçom
prioritária na comunidade mundial.
Entom, por que é que todos eles votárom a favor da
resoluçom –mesmo França, Rússia e China, mesmo Síria? A resposta é mui simples.
Todos tém medo da administraçom Bush. A qual pujo em evidência que tomaria
medidas de castigo contra qualquer país que se interpugesse no seu caminho, nom
apenas as Ilhas Maurício ou a Síria, mas também a Alemanha ou o Canadá. Assim,
cada um destes países tinha de sopesar as conseqüências de curto prazo do
desafio. E o preço pareceu alto. Desta forma, embora serpeássem e obtivessem
algumhas (nom demasiadas) concesões para a galeria, afinal cedêrom. Houvo um
tempo em que os amigos e aliados dos EUA se alinhavam felizmente atrás da
liderança estadunidense numha crise mundial. Esse tempo acabou. Agora
alinham-se descontentes porquanto tém medo, não dos EUA em abstracto, mas
concretamente da administraçom Bush.
Algo que tornou isto possível foi o colapso mundial do
centro reformista. Há umha semelhança notável, amplamente desapercebida na
imprensa, entre as últimas eleições francesas e estadunidenses. A expectaçom
inicial era que os socialistas ganhariam na França. A expectaçom inicial era
que os Democratas ganhariam nos EUA. Ambos perdérom as eleições por um margem
mui estreito. Le Pen superou ligeiramente Jospin, ficando segundo na primeira
volta por umha minúscula diferença. Umha mudança de 50.000 votos em dous estados
dos EUA teria dado aos democratas o controlo do Senado estadunidense.
Havia um factor comum às duas derrotas: o esgotamento do
programa histórico dos dous partidos. Em ambos os países, um grande número de
eleitores achou que o seu partido abandonou as suas reivindicações, que estivo
tentando imitar os conservadores, enquanto perdia a seu base. Isto é um reflexo
do prolongado declive dos movimentos tradicionais de centro-esquerda, que
noutro tempo dominárom a cena mundial. A seguir às eleições, ambos os partidos
carecem de um líder e um programa claros. Estám assediados por debates internos
sobre se deveriam mover-se mais ao centro (e tentar erosionar o eleitorado
conservador) ou mover-se para o esquerda (e tentar recuperar votos de
desiludidos). Nom é umha escolha fácil tacticamente, porque qualquer escolha
perderá bem como ganhará votos. E nengumha táctica funcionará se nom houver um
programa claro. Mas haverá-o?
Portanto, no curto prazo, os planos de Bush parece que
possivelmente vencerám. A longo prazo, a administraçom Bush sabe tambem o que
quer: poucas restrições na aquisiçom de riqueza (nom importa em quanta
polarizaçom económica e social resulte no ámbito nacional e mundial); um
retrocesso dos hábitos sociais liberais que fôrom envolvendo a cena mundial; e
estruturas autoritárias de facto, para as que a democracia significa mudanças
menores entre grupos de elite cada poucos anos.
Mas podem desde o plano a curto prazo alcançar o plano a
longo prazo? A administraçom Bush simplesmente assume que é possível; nom
esbanja o seu tempo pensando sobre o plano a meio prazo. Este é o seu calcanhar
de Aquiles. Podem realmente conter a destruiçom que a invasom do Iraque causará
na política do Oriente Médio? Estám os estadunidenses médios realmente
dispostos a dedicar a vida das suas crianças e o seu dinheiro a favor dos
planos de Bush, especialmente se nom os provê de segurança e prosperidade, o
que é improvável que faga? Pode o dólar realmente superar a tensom adicional
sobre a sua credibilidade? Podem realmente os EUA bloquear a ploriferaçom
nuclear? Pode conter o levantamento populista que está acontecendo na América
Latina? Quanto demorarám a China, o Japom e a Coreia em chegar a um acordo de
que nom gostem os EUA?
A agressiva abertura enxadrista da administraçom Bush foi
espectacular. Mas foi acertada, mesmo do seu ponto de vista? Pode o medo
realmente vencer a esperança durante muito tempo?
Immanuel Wallerstein
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Traduçom: José Manuel Outeiro G.