Fernand Braudel Center, Binghamton University
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Comentários 152, 1 de Janeiro 2005
Há bastante certeza sobre qual política George W. Bush vai seguir, no
segundo mandato, no âmbito interno estadunidense, pois ele já a anunciou com
clareza: vai impor mais cortes fiscais. Vai tentar privatizar o mais que possa
da seguridade social. Vai nomear apenas juízes conservadores, nos campos
econômico e social. Vai tentar desmantelar a legislação ambiental. Vai tentar
reforçar as autoridades policiais. Em resumo, seu programa é o clássico da
direita.
No entanto, sua política externa é mais obscura. No primeiro mandato, se
comprometeu com ações dissuasórias, onde e quando julgase conveniente, mas essa
política não teve muitos êxitos, mesmo aos olhos de seus simpatizantes, que em
grande parte exigiram a renúncia do secretário de Estado Donald Rumsfeld.
A questão imediata é o Iraque, com cujas eleições dia 30 de janeiro os EUA
têm a esperança de desviar de si para o novo governo, a hostilidade dos
insurgentes, com o que se poderia. É quase certo que as eleições serão
realizadas em meio a uma contínua violência e com grande abstenção, em especial
nas áreas sunitas.
É provável que o novo primeiro-ministro seja o aiatolá Sayed al-Hakim,
líder do principal partido xiita, de sigla em inglês Sciri. É quase certo que a
insurgência continuará, acusando o novo governo de ser uma marionete dos
Estados Unidos. E logo o novo governo iraquiano terá de escolher entre uma
política abertamente pró-EUA or uma política mais nacionalista, como quer o
povo iraquiano; este último parece o rumo mais provável, para que o governo
alcance mais legitimidade.
A pressão para que os EUA retirem suas tropas virá então de três lados: dos
insurgentes, do novo governo iraquiano e da opinião pública estadunidense. Nos
EUA, todas as pesquisas indicam que cada vez mais pessoas julgam por demais
elevados os custos humanos e financeiros da guerra. Os EUA estão à beira de
nova onda isolacionista, em especial entre os republicanos.
Sem dúvida, outros elementos no governo Bush, como os militaristas e os
neoconservadores, que não são idênticos entre si, vão combater duramente os
isolacionistas. Mas esse campo intervencionista está muito mais fraco do que em
2003. Podemos estar prestes a presenciar uma enorme virada na política externa
estadunidense, mais semelhante às posições de “multilateralismo”, defendidas
por Colin Powell.
O que acontecr no Iraque dará o rumo da política externa de Bush. Esse já
deteve seus impulsos em relação à Coréia do Norte e ao Irã. Os integrantes de
sua equipe ficariam felizes se conseguissem novas negociações entre Israel e a
Palestina, impulsionadas particularmente por Blair e que parecem não ir muito
longe. Nesse campo, a posição reservada de Bush o preservará de prejuízos
internos.
Onde, no mundo, Bush pode atuar agora? Em Cuba? Mas hoje existem
funcionários estaduais no Alabama, no coração eleitoral de Bush, que dizem que,
se não venderem frangos a Cuba, o Brasil venderá. Na Rússia? Vimos como, apesar
das críticas a Putin na imprensa dos EUA, a propósito das eleições na Ucrânia,
Bush manteve sua aliança com Putin. Na China? Os interesses econômicos
estadunidenses impedem qualquer hostilidade, apesar da preocupação do governo
de Bush com a maior influência da China na Ásia. Na Europa? Mesmo a “Nova
Europa” de Rumsfeld começa lentamente a abandonar os EUA. Em resumo, Bush não
tem muitas opções.
Como o mundo vai reagir a esse novo isolacionismo militar e econômico dos
EUA? Se pode esperar que, depois de um período inicial de cuatela, todo mundo
vai tentar tirar vantagem dessa nova demonstração da debilidade geopolítica dos
EUA. O problema é que, uma vez reduzida a presença estadunidense no mundo, a
situação se torna semelhante à retirada de um elefante de dentro de uma sala.
Ninguém sabe como preencher o espaço deixado livre. E é provável que ninguém
tenha preparado um conjunto de políticas para esse caso. Então, por causa da
insegurança, haverá muitas voltas e contravoltas entre os outros atores
geopolíticos. Os Estados Unidos já eram uma potência hegemônica em decadência
quando Bush chegou ao poder em 2001. Ao buscar restaurar a posição mundial dos
EUA nos seus quatro primeiros anos na presidência, Bush, de fato, tornou a
situação mais grave. Neste segundo mandato, os Estados Unidos (e Bush) vão
volher a loucura que semearam.
By Immanuel Wallerstein
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