Fernand Braudel Center, Binghamton University
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179, feb. 15, 2006
O Irã e a bomba
Boa parte da discussão em torno
do programa nuclear iraniano é pura e simplesmente histérica. Haja visto a declaração feita neste
mês pelo senador John McCain: "Só existe uma coisa pior do que a ação
militar: um Irã dotado de arma nuclear".
Sentimo-nos tentados a
responder citando o título de uma peça de Shakespeare, "Muito Barulho por
Nada", exceto que está sendo feito realmente muito barulho e que algumas
pessoas em altos escalões parecem estar falando sério quando mencionam a
possibilidade de recorrer à ação militar para impedir o Irã de obter armas
nucleares. Então, precisamos perguntar por que isso é tão importante, e para
quem?
Para começar, por que
deveríamos achar que será uma catástrofe se, amanhã, o Irã passar a dispor de
armas nucleares? Hoje existem nove países que, sabidamente, as possuem _os EUA,
o Reino Unido, a Rússia, a França, a China, Israel, a Índia, o Paquistão e a
Coréia do Norte. O que mudaria se o Irã se tornasse o décimo? Quem seria
ameaçado pelo Irã? Que país Teerã poderia bombardear?
No momento presente, não
existe nenhum tipo de indicativo de que o Irã seja ou pretenda tornar-se
militarmente agressivo. É verdade que o presidente iraniano atual, Mahmoud
Ahmadinejad, fez declarações muito hostis em relação a Israel. Mas será que
alguém imagina que ele tem a intenção de bombardear Israel ou que o Irã possui
a capacidade militar de fazê-lo com eficácia em qualquer momento do futuro
próximo? Discursos e intenções são duas coisas diferentes.
Entretanto, se o Irã não
pretende utilizar a bomba, por que quereria tê-la? Existem algumas razões
óbvias. Dos nove países que possuem a bomba, todos menos um podem alcançar o
Irã com suas armas. O governo iraniano teria de ser muito ingênuo para não se
preocupar com isso. Ademais, baseado na política norte-americana dos últimos
cinco anos, ele pode facilmente deduzir que os EUA invadiram o Iraque, mas não
a Coréia do Norte, e que uma das maiores diferenças entre os dois países era
que o Iraque não possuía armas nucleares, enquanto a Coréia do Norte, sim.
Uma segunda razão evidente
é o nacionalismo iraniano. Precisamos lembrar que as aspirações do Irã de
tornar-se uma potência nuclear não começaram com o presidente atual. Elas datam
de desde antes da Revolução Islâmica, da época do xá do Irã. É evidente que,
hoje, uma potência "média" das dimensões do Irã se fortaleceria
geopoliticamente se fosse membro do clube nuclear. O Irã tem seus interesses
nacionais próprios, como têm outros Estados também, e está claro que deseja
desempenhar papel de destaque em sua região.
Mas será que esse fato, por
si só, representa uma ameaça ao mundo ou à região? Quando a União Soviética
promoveu sua primeira explosão nuclear, em 1949, o mundo ocidental lamentou em
voz alta. Em retrospectiva, porém, fica claro que o fator isolado que mais
contribuiu para a não-ocorrência de uma guerra americano-soviética, desde 1949
até a dissolução da União Soviética, em 1991, foi o fato de ambas as potências
possuírem armas nucleares. Foi o temor da destruição mútua que garantiu que
nenhuma das duas fizesse uso de suas armas nucleares, apesar de todas as
tensões agudas sofridas, desde o bloqueio de Berlim, até a chamada crise dos
mísseis em Cuba e, mais tarde, a guerra no Afeganistão. O fato de tanto a Índia
quanto o Paquistão possuírem a bomba vem funcionado como fator muito forte de
contenção no conflito dos dois países em torno da Caxemira.
Por que o equilíbrio de
terror não poderia operar igualmente bem no Oriente Médio? Por que a posse de
uma arma nuclear pelo Irã não poderia constituir um fator pacificador do
Oriente Médio, em lugar do contrário?
A única resposta é que o
governo iraniano não é suficientemente "racional" para abster-se de
usar a bomba. Mas está claro que isso é bobagem _bobagem racista, devemos
acrescentar. O regime iraniano é ao menos tão politicamente sofisticado quanto
o governo George W. Bush, além de ter um discurso bem menos militarista do que
este.
Então, por que todos vêm
fazendo tanto alarde? Henry Kissinger apresentou a explicação há mais de um
ano, e mais recentemente Thomas Friedman a repetiu no "New York
Times". Está muito claro que, a partir do momento em que o Irã possuir
armas nucleares, a barreira terá sido rompida, e outros dez a 15 países vão
trabalhar rapidamente para fazer o mesmo. Existem alguns candidatos óbvios: a
Coréia do Sul, o Japão, Taiwan, a Indonésia, o Egito, o Iraque (sim, o Iraque),
a África do Sul, o Brasil, a Argentina e muitos países europeus. Em 2015, pode
haver 25 potências nucleares no mundo.
Isso é perigoso? É claro
que sim, na medida em que sempre existem grupos e indivíduos desvairados que
podem ganhar acesso aos botões que precisarem ser apertados. Mas essas pessoas
e esses grupos desvairados já existem nos nove países nucleares atuais, e eu
não acredito que existam mais deles nos próximos 15 países. O desarmamento
nuclear é um objetivo que é urgente, mas não o desarmamento nuclear de apenas
uma parte do mundo _o desarmamento nuclear de todos.
A razão pela qual os EUA,
em especial, vêem com tanto temor o potencial armamento nuclear do Irã é que a
difusão das armas nucleares para os chamados países médios reduz claramente a
força militar de Washington.
Mas isso não significa que
ela ameace a paz do mundo. Devemos, então, nos preocupar com a possibilidade de
uma invasão do Irã pelos EUA ou de um ataque israelense? Não realmente, pois os
EUA não possuem, neste momento, a força militar necessária para empreender tal
ataque, o regime iraquiano não o suportaria e Israel não pode empreendê-lo sozinho.
Logo, o que se está fazendo atualmente é muito barulho por nada.
Immanuel Wallerstein
(published in Folha de Sao Paulo, Feb. 19, 2006)
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