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233, 15/5/2008
“Até onde chegou a viragem à esquerda da América Latina?”
Todos parecem concordar que a
América Latina virou à esquerda no período pós 2000. Mas que quer isto dizer?
Se olharmos para as eleições na
América Latina, os partidos à esquerda do centro ganharam-nas em muitos países
desde 2000 – Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Equador, Venezuela, Nicarágua,
e mais recentemente Paraguai. Existem evidentemente importantes diferenças
entre as situações nestes países. Alguns destes governos parecem muito perto do
centro. Outros usam uma linguagem mais revolucionária. E há umas poucas
excepções – Colômbia, Peru e México (apesar de no México o governo conservador
ter ganho as últimas eleições com quase o mesmo grau de legitimidade com que
Bush ganhou as eleições de 2000 nos Estados Unidos). A grande questão não é que
a América Latina tenha virado à esquerda, mas até onde chegou essa viragem à
esquerda
Na minha opinião, há quatro
diferentes tipos de factos que se podem adiantar para dizer que a Améria Latina
virou à esquerda. O primeiro é que todos estes governos procuraram, de uma
forma ou de outra, distanciar-se dos Estados Unidos em diferentes graus. A
administração Bush teria preferido em todos estes casos que os seus adversários
eleitorais tivessem vencido. No passado, quando governos inamistosos chegaram
ao poder na América Latina, a tendência dos Estados Unidos foi trabalhar para
conseguir a sua substituição, ou mesmo o seu derrube. Mas o declínio do poder
dos Estados Unidos no sistema-mundo, e em particular a preocupação dos Estados
Unidos com as guerras que andaram a perder no Médio Oriente, parecem tê-los
exaurido da energia política necessária para condicionar decisivamente a
América Latina, como antes faziam. O fracassado golpe contra Chávez em 2002 é
uma boa prova disto.
Que distâncias tomaram estes
governos entre eles e em relação aos Estados Unidos? Fizeram-no de várias
maneiras. Em 2003, os Estados Unidos foram incapazes de persuadir os dois
membros latino-americanos do Conselho de Segurança da ONU da época (Chile e
México) a apoiar a resolução que pretendia legitimar a invasão americana ao
Iraque. Na última eleição do Secretário-Geral da Organização dos Estados
Americanos (OEA), o candidato apoiado pelos EUA perdeu, coisa que nunca
acontecera na história da OEA. E quando o único amigo seguro dos Estados Unidos
da América Latina de hoje, a Colômbia, entrou este ano numa severa rixa com a
Venezuela e o Equador, os outros estados latino-americanos alinharam-se de
facto com o Equador e a Venezuela. O Equador está a rejeitar actualmente
renovar a autorização para a permanência da base militar dos EUA no país.
O segundo tipo de factos que
indicam uma tendência para a esquerda são o grande crescimento da importância
dos movimentos indígenas em toda a América Latina – nomeadamente no México, no
Equador, na Bolívia e na América Central. As populações indígenas da América
Latina foram desde sempre os sectores
mais oprimidos da população e na sua maior parte foram mantidas fora das
estruturas políticas. Mas hoje temos um presidente índio na Bolívia, que
representa uma verdadeira revolução social. A força destes movimentos na zona
andina e nas áreas maias da América Central tornou-se um factor político de
importância decisiva, e que veio para ficar.
O terceiro tipo de factos é a
sobrevivência e mesmo o ressurgimento da Teologia da Libertação. O Vaticano
tentou suprimir estes movimentos nos últimos três papados, com pelo menos o
mesmo vigor que os Estados Unidos usaram contra os governos de esquerda nos
anos 50 e 60. Silenciou teólogos e substituiu bispos simpáticos à Teologia da
Libertação por outros manifestamente pouco amigáveis. Apesar disso, movimentos
católicos inspirados pela Teologia da Libertação continuaram a florescer no
Brasil. Os presidentes do Equador e do Paraguai emergiram dessa tradição. E a
invasão de grupos evangélicos protestantes na América Latina pode estar a mudar
a atitude do Vaticano para tornar-se mais tolerante com os teólogos da
libertação, que pelo menos são católicos, e podem ajudar a estancar esta perda
de fé em relação à igreja.
Finalmente, o Brasil tem vindo a
aplicar um esforço razoavelmente bem-sucedido para se tornar líder de um bloco
regional sul-americano. Isto pode não parecer, em si mesmo, um movimento para a
esquerda. Mas no contexto de um processo mundial de multipolarização, o
estabelecimento destas zonas regionais enfraquece o poder não só dos Estados
Unidos mas de todo o Norte em termos de relações Norte-Sul. A liderança
brasileira dos chamados países do G-20 tem sido um factor decisivo para a
extirpação da capacidade da Organização Mundial do Comércio para implementar a
agenda neoliberal.
Em que resulta tudo isto? Certamente
não numa “revolução”, no sentido tradicional do termo. O que quer dizer é que o
ponto de intersecção da política latino-americana, o lugar geométrico do
“centro” moveu-se consideravelmente para a esquerda, em relação a uma década
atrás. Isto tem de ser posto no contexto de um movimento mundial. Esta
deslocação para a esquerda também está em curso no Médio Oriente e na Ásia
oriental. Também está a ocorrer nos Estados Unidos. O impacto da recessão
económica mundial, que em breve se tornará provavelmente ainda mais severa, irá
sem dúvida empurrar estas tendências ainda mais longe.
Não haverá reacções da direita
que empreguem a força? Sem dúvida que haverá. Na América Latina, vemo-las hoje
na tentativa das regiões orientais da Bolívia, mais ricas e “mais brancas”, de
obter a independência e afastar-se do domínio das populações indígenas
maioritárias que finalmente conquistaram o poder do governo central. Estamos
diante tempos turbulentos politicamente, na América Latina e noutros lados. Mas
a esquerda está numa posição muito mais forte para travar estas batalhas hoje
na América Latina do que jamais esteve no último meio século.
Immanuel Wallerstein,
Tradução de Luis Leiria
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bimensalmente, são reflexões sobre o cenário do mundo contemporâneo, visto
de uma perspectiva não imediatista, mas de longo prazo.
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