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234, 01.06.2008
Como a guerra do Iraque vai acabar
Todos os olhares estão virados
para a campanha presidencial, na qual os candidatos tomaram posições bastante
diferentes a respeito da guerra do Iraque. Mas este é o lugar errado para
olhar. Acredito que é bastante certo que Barack Obama vai ser o próximo
presidente dos Estados Unidos. E as suas opiniões sobre a guerra do Iraque são
quase o oposto total das do seu rival, John McCain. Obama opôs-se à invasão
americana desde o início. Ele acredita que continuar a guerra é prejudicial
para todos – para os Estados Unidos, para o Iraque, para o resto do mundo. E
diz que vai procurar retirar todas as tropas dos EUA em 16 meses.
Logo que assumir o cargo, Obama
vai sem dúvida descobrir que a definição de retirada das tropas será matéria
para grande controvérsia nos Estados Unidos, e que será menos fácil do que ele
diz conseguir o seu objectivo, mesmo que se tratasse apenas de um assunto da
política interna dos Estados Unidos. A chave para pôr fim à guerra no Iraque é
o que acontece na política iraquiana, não na política dos EUA.
Vou fazer a imprudente previsão
de que algures em 2009 (ou 2010 no máximo), o primeiro-ministro do Iraque será
Moqtada al-Sadr, e que al-Sadr fará com que a guerra acabe. Eis o que mais
provavelmente vai acontecer. Os média mundiais recordam-nos todos os dias das
clivagens vistas hoje como definitivas no corpo político iraquiano. Há três
grupos étnicos – os xiitas, os árabes sunitas e os curdos. Cada um está
principalmente localizado numa zona geográfica específica. A principal excepção
é a capital, Bagdad, que tem uma população mista sunita-xiita, apesar de que até
aqui estão geograficamente concentrados em partes específicas da cidade.
Além disso, como todos sabemos
hoje, cada uma destas zonas tem divisões internas. Há múltiplos partidos
xiitas, cada um dos quais parece ter uma milícia à disposição, e antagonismos
que vêm de há muito. Os principais são o grupo dirigido por al-Sadr e o partido
conhecido por SCIRI, dirigido por Abdul-Aziz al-Hakim. As áreas sunitas têm uma
imagem menos clara. Há os sheiks e os ex-baathistas, ligados a vários políticos
da legislatura iraquiana. E há também um pequeno mas importante grupo de
jihadistas, em grande parte não-iraquianos, ligados de alguma forma à al-Qaeda.
Na zona curda há dois partidos que competem, mais as minorias cristãs e
turcomena.
Na verdade, este tipo de formação
complicada não é mais diversa da que encontramos em muitos países à volta do
mundo. Pensem como seriam descritos os grupos envolvidos na política dos EUA. Por
isso, se queremos compreender o que provavelmente vai acontecer no Iraque,
temos de analisar esta diversidade, para retirar a questão ou questões mais
importantes.
Parece-me que, para os
iraquianos, a questão mais importante é se o Iraque vai sobreviver ou não como
um estado unificado, que seja capaz de recuperar a sua posição forte, económica
e geopolítica, na região. Quem está contra isto? Na verdade, há apenas dois
grupos que são seriamente hostis a um nacionalismo iraquiano renovado e
revivificado – os curdos e a força xiita dirigida por al-Hakim. O último sonha
com um Sul do Iraque autónomo, na verdade independente, que ele dominaria e
onde há ricos recursos petrolíferos. Quer cortar todos os vínculos com as
regiões sunitas. E quer enfraquecer seriamente o campo de al-Sadr, que, apesar
de ser forte nessa região, é virtualmente inconteste em Bagdad. Se Bagdad fosse
separado desta região, o campo de al-Hakim acredita poder acabar por destruir o
campo de al-Sadr.
Os curdos sonham obviamente com
um Estado curdo independente. Mas são um povo eminentemente pragmático. Eles
sabem que um Estado curdo sem saída para o mar teria dificuldades de
sobreviver. A Turquia poderia provavelmente invadi-lo, assim como o Irão. Os
Estados Unidos provavelmente pouco fariam e ficariam bastante embaraçados por
toda a questão. E Israel seria irrelevante. Por isso, os curdos estão
claramente dispostos a continuar a autonomia de facto dentro de um Iraque unificado. Evidentemente que ainda há
uma disputa com os outros sobre quem vai controlar Kirkuk. Duvido que os curdos
consigam Kirkuk, e suspeito que o máximo que vão fazer é resmungar alto.
Vamos agora olhar para os outros.
As forças árabes sunitas também são muito realistas. Sabem que é impossível
voltar a um Iraque unilateralmente governado por elas. O que verdadeiramente
querem agora é a sua parcela justa da máquina política do Estado e dos seus
recursos (já que a sua zona não tem petróleo, pelo menos até agora). Apesar de
não poderem esperar ter um Iraque dominado por sunitas, podem esperar ter um
Iraque que retome o seu antigo papel predominante no mundo árabe, e claramente
vão ser beneficiados, individual e colectivamente, por esta restauração.
Assim, no fim de contas, o grupo
chave é o xiita. Moqtada al-Sadr deixou claro desde o início que quer um Iraque
unificado. Por um motivo: esta é a única forma de o seu povo em Bagdad poder
sobreviver e florescer. Por outro: ele acredita no Iraque. Evidentemente, ele e
os seus seguidores sofreram bastante sob os baathistas. Mas está aberto às
negociações com os baathistas reformados e muito mais fracos. E demonstrou-o
claramente nos dois últimos anos. Deu apoio moral ao povo de Falluja quando
estava sob ataque das forças americanas há dois anos. E recebeu a atitude
recíproca nos recentes combates de Bagdad, quando as suas forças sofriam os
assaltos das mesmas forças dos EUA.
Resta um dos principais
protagonistas, o Grande ayatollah Ali al-Sistani, o mais importante líder
espiritual xiita no Iraque. Al-Sistani optou por um jogo político cuidadoso
desde a invasão americana. A sua prioridade tem sido a de manter unidos os
xiitas. Na maioria das vezes, nada diz. Mas nos momentos cruciais dispõe-se a
intervir. Quando o procônsul americano L. Paul Bremer queria criar um governo
iraquiano que mais ou menos o seguisse, al-Sistani insistiu em eleições, e os
EUA tiveram de recuar. O resultado foi que conseguiu um governo dominado pelos
xiitas. Quando ocorreram demasiados combates entre o campo de al-Hakim e o de
al-Sadr, ele negociou a calma.
Que quer al-Sistani?
Teologicamente, quer que Najaf, a sua sede, se torne de novo o centro teológico
do mundo religioso xiita, em oposição a Qom, no Irão, que assumiu esse papel
especialmente desde a revolução iraniana de 1979. Geopoliticamente, isto requer
um Iraque forte, capaz de se relacionar com o Irão como um igual. E, para ter
um Iraque forte, é preciso um Iraque unido, e essencialmente um Iraque que
ponha fora os invasores americanos.
Actualmente, os Estados Unidos
estão a tentar obter do Iraque a assinatura de um acordo militar de longo prazo
que garanta as bases americanas indefinidamente. O actual primeiro-ministro do
Iraque, Nuri Al-Maliki, está a tentar manobrar de forma a satisfazer os
americanos sem ter de fazer votações sequer no parlamento. Moqtada al-Sadr
apela a um referendo. Al-Sistani, ao que parece, também. Um referendo, claro,
garante a derrota do acordo.
Assim, em 2009, irá parecer
lógico que al-Sadr, al-Sistani, os sunitas e até os curdos se reúnam numa
plataforma política de unidade nacional e os EUA se retirem totalmente, sem
bases a longo prazo. Moqtada al-Sadr irá implementar esta unidade como
primeiro-ministro. Al-Hakim ficará infeliz, mas será mantido na linha por
al-Sistani. Os iranianos ficarão ambivalentes. O povo americano e os
especialistas vão ficar espantados com a calma relativa no Iraque. E o
presidente Obama e o Pentágono não terão muita escolha. Terão de concordar
graciosamente. São até capazes de proclamar “vitória”.
Por Immanuel Wallerstein
Tradução de Luis Leiria
1/6/2008
Comentário 234
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