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237, 15.07.2008
O reforço de tropas americanas no Iraque funcionou?
Em 2006, as coisas pareciam estar
a correr muito mal para os esforços militares no Iraque. A guerra do Iraque
tornou-se na questão principal das eleições de 2006 para o Congresso nos
Estados Unidos. Há um acordo geral de que os republicanos tiveram um mau
resultado nestas eleições em grande parte porque o eleitorado ficara desiludido
com a viabilidade da invasão e por isso questionava-se se valia a pena.
Em 11 de Dezembro de 2006, um
comité bipartidário de importantes figuras do establishment dirigido por James A. Baker e Lee Hamilton aprovou um
relatório que pedia uma retirada faseada das tropas norte-americanas e
conversações directas com o Irão e a Síria sobre todas as questões pendentes no
Médio Oriente.
Apesar do muito amplo apoio
político às recomendações de Baker-Hamilton, o presidente Bush decidiu-se por
uma reacção bastante diferente à situação militar vacilante, uma resposta que
passou a ser chamada de “surge”. Basicamente, a estratégia do “surge” (aumento,
crescimento) não era a retirada mas o aumento de tropas, e procurar de várias
formas reduzir radicalmente a violência tanto contra as tropas americanas
quanto contra os iraquianos.
Hoje, cerca de 18 meses depois, a
regime de Bush e o candidato republicano John McCain estão a saudar o sucesso
desta estratégia. É verdade que os ataques a militares dos EUA reduziram-se
radicalmente em relação ao nível de há 18 meses. Também é verdade que a violência
contra os iraquianos de certa forma reduziu-se, selectivamente. A consequência
disto foi que houve mudanças na opinião pública norte-americana. As sondagens
mostram que o número de pessoas que pensam que a guerra foi um “erro” é mais ou
menos o mesmo, e ainda são a favor de uma retirada faseada. O que mudou é o
grau de ansiedade ou de urgência sentido pelo público dos EUA.
O Iraque já não é a preocupação
número um. A atenção foi radicalmente desviada para o mau estado da
economia-mundo e particularmente da economia dos EUA. O claro resultado na
política eleitoral dos EUA é que McCain não está a atrair eleitores indecisos
com base no sucesso do reforço de tropas, nem Obama está a atrair eleitores
indecisos com base na sua promessa de retirar as tropas.
Isso ainda deixa a questão: o
reforço de tropas realmente funcionou? Suponho que se olharmos exclusivamente
para os números de baixas de curto-prazo, poderíamos argumentar que sim. Teria
resultado ainda melhor se os EUA pudessem mandar mais 200 mil militares. Mas os
Estados Unidos não têm mais 200 mil militares para enviar. E os países que
colaboram com a invasão têm estado a retirar tropas, não a enviar mais. Claro
que se se suborna uma grande quantidade de sheiks sunitas, eles ficam ao lado
dos EUA, pelo menos por enquanto. E se se institucionalizam as expulsões
étnicas, como é o caso de Bagdad, há menos espaço para alguns dos tipos de
violência inter-iraquiana que ocorreram antes. E se Moqtada al-Sadr pensa que é
mais prudente esperar pelo momento certo, haverá uma redução temporária no tipo
de violência que ocorrera antes.
Mas olhem para o que aconteceu
nas outras partes do Médio Oriente devido ao “surge”. Em Novembro de 2006, os
EUA e a Nato congratulavam-se do sucesso dos seus esforços no Afeganistão. Mas,
desde então, aconteceram duas coisas. O número de baixas dos EUA aumentou
enormemente, passando agora as do Iraque. O mesmo aconteceu à violência contra
afegãos. Subitamente os taliban estão de volta em grande estilo. E agora, pela
primeira vez desde 2001, os especialistas estão a falar sobre a possibilidade de os EUA perderem a
guerra no Afeganistão, bem como no Iraque.
E olhem para o Paquistão. Desde
Novembro de 2006, o país teve eleições relativamente democráticas, que
trouxeram ao poder uma legislatura hostil ao presidente Musharraf, que é ainda
a pessoa em quem o regime de Bush confia para prosseguir a política favorável
aos interesses dos EUA. O resultado é que Musharraf está a lutar para manter a
cabeça acima da linha de água. Uma das formas que ele lanço mão para isto foi
fazer um acordo tácito com as forças islamistas na fronteira noroeste da
região, que favorecem e albergam tanto a al-Qaeda quanto os taliban. Recentemente,
estas forças quase ocuparam o maior centro urbano da região. De qualquer forma,
estão muito fortes e ajudando activamente os taliban no Afeganistão.
Olhem também como o Irão está a
subir o tom. Assim como Israel em relação ao Irão. Assim como Dick Cheney. O
facto é que, porém, o Irão está mais forte que nunca. E estiveram a fortalecer
de todas as formas as suas ligações com os dois grupos no Iraque nos quais se
baseiam as esperanças dos EUA – o governo de al-Maliki e os Curdos. O Irão, na
verdade, partilha muitos interesses com os Estados Unidos no Afeganistão. Mas
os Estados Unidos são incapazes de obter vantagem desta aliança geopolítica
porque insistem em ver o Irão como um demónio maligno no Médio Oriente.
Agora olhem de novo para o
Iraque. Os Estados Unidos esperavam que com o “surge” tão “bem-sucedido”,
poderiam conseguir que o Iraque assinasse este
ano um acordo sobre o estabelecimento de tropas e de bases dos EUA no
Iraque durante as próximas décadas. Em vez disso, al-Maliki deixou claro que
não só o Iraque não vai assinar mais que um breve acordo interino, como também
nem isso poderá fazer a menos que os Estados Unidos se comprometam com um
calendário de retirada, algo que é um anátema tanto para Bush quanto para
McCain.
Poderia continuar – sobre o
Líbano, sobre Israel/Palestina, os estados do Golfo. O facto é que os Estados
Unidos estão decididamente mais fracos por todo o Médio Oriente nos 18 meses
desde que o “surge” começou. Não aconteceu isto, talvez em grande parte,
precisamente devido ao “surge”? O Médio Oriente hoje é como um grande balão
geopolítico. Se se aperta de um lado, o ar simplesmente vai-se deslocar para
outro lado. E o balão está a ficar cada vez mais frágil. Está à beira de
estourar.
Por Immanuel Wallerstein, 15 de Julho, de 2008
Tradução de Luis Leiria
Comentário nº 237
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de uma perspectiva não imediatista, mas de longo prazo.
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