Fernand Braudel Center, Binghamton University
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238, 01.08.2008
Afeganistão: bancos de areia na rota do presidente Obama
Obama baseou a sua campanha e
atraiu os eleitores americanos em grande parte devido à sua posição sobre a
guerra do Iraque. Opôs-se-lhe publicamente desde 2002. Chamou-lhe uma guerra
“parva”. Votou contra o “surge” (o reforço de tropas). Chamou a uma retirada de
todas as tropas de combate em 16 meses. Recusou-se a aceitar que era errado
opor-se ao “surge”.
Ao mesmo tempo que fazia tudo
isso, sempre argumentou que os Estados Unidos deviam fazer mais no Afeganistão.
Isto inclui explicitamente enviar mais 10 mil soldados, e o mais cedo possível.
Não parece pensar que a guerra lá também é, de certa forma, parva. Parece
pensar que os Estados Unidos podem “vencer” essa guerra – com mais tropas e
mais assistência da Nato. Quando for presidente, pode ter aí uma desagradável
surpresa.
Obama faria bem em reflectir
sobre a recente entrevista dada ao Le
Monde por Gérard Chaliand. Chaliand é um importante geoestratega,
especialista nas chamadas guerras irregulares. Conhece muitíssimo bem o
Afeganistão, tendo estado lá muitas vezes nos últimos 30 anos. Passou muito
tempo com os mujahedin durante a luta
contra as tropas soviéticas nos anos 80. Passa actualmente muitos meses por ano
em Cabul, no Centro para Estudos sobre Conflitos e Paz, do qual foi um dos
fundadores.
Ele é muito claro sobre a
situação militar. “É impossível a vitória no Afeganistão... Hoje, é preciso
tentar negociar. Não há outra solução.” Porquê? Porque os Taliban controlam os
poderes locais em todo o Leste e Sul do país, onde prevalecem as populações
pashtun. Duplicar o número de militares ocidentais, duplicar o tamanho do
Exército governamental e gastar muito mais que os actuais 10% da ajuda
económica externa pode mudar a situação. Mas Chaliand duvida, e eu também, que
os Estados Unidos e a Nato estejam politicamente propensos a isso. O ministro
dos Negócios Estrangeiros da Alemanha já advertiu Obama para que não pressione
o seu país a enviar mais tropas para combater os Taliban. Não que os Taliban
possam vencer, diz Chaliand. O que existe, na verdade, é um “impasse militar”. Os
Taliban, que são politicamente astutos, estão pacientemente à espera até que o
Ocidente “se canse de uma guerra que se arrasta”.
Para vermos como os Estados
Unidos se meteram neste beco sem saída, temos que regressar um pouco na história.
Desde o século XIX, o Afeganistão tem sido o ponto focal do “grande jogo” entre
a Rússia e a Grã-Bretanha (hoje sucedida pelos Estados Unidos). Ninguém jamais
ganhou o controlo, a longo prazo, desta zona de trânsito crucial.
Hoje, o Afeganistão tem na sua fronteira um estado chamado Paquistão, com uma grande população pashtun precisamente na fronteira. O primeiro interesse geopolítico do Paquistão é ter um Afeganistão amigável, para que a Índia – e também a Rússia, os Estados Unidos e/ou o Irão – não o venham a dominar. O Paquistão apoiou de uma forma ou de outra a maioria pashtun, que hoje significa os Taliban. E não pretende deixar de fazê-lo.
Sob o presidente Carter, os
Estados Unidos decidiram tentar expulsar um chamado governo comunista
considerado muito próximo da Rússia. Sabemos hoje, depois que passou a haver
acesso aos arquivos da administração Carter, e também através de uma famosa
entrevista dada há dez anos por Zbigniew Brzezinski, então Conselheiro de
Segurança Nacional de Carter, que o apoio dos EUA antecipou em pelo menos seis meses a invasão
das tropas soviéticas. De facto, um dos objectivos era precisamente atrair a
União Soviética a uma intervenção militar, na correcta suposição de que esta,
em última instância, não atingiria o alvo e enfraqueceria o regime soviético em
casa. Bravo! Foi isso mesmo que fez. Mas a política dos EUA também gerou, ao
mesmo tempo, a Al-Qaeda e os Taliban – um caso clássico em que o tiro saiu pela
culatra aos Estados Unidos. De qualquer forma, é o próprio Brzezinski que está
a advertir Obama para não repetir o erro soviético.
Assim, Obama está a prometer hoje
algo que não está em condições de cumprir. É sempre muito bom para ele receber
o implícito aval do governo iraquiano para as suas propostas em relação ao Iraque.
Está a obter grande sucesso por conta disso, e vai colher crédito do público
dos EUA e do mundo. Mas pode desfazer esse crédito ao não conseguir cumprir uma
promessa impossível sobre o Afeganistão. O seu grupo de 300 conselheiros não
está a servi-lo bem nesta questão. Obama sabe ser prudente quando é necessário.
Mas não está a ser nada prudente em relação ao Afeganistão.
1 de Agosto de 2008
Tradução de Luis Leiria
Commentary No. 238
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