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Comentário 239, 15 de Agosto de 2008
Xadrez geopolítico: antecedentes de uma mini-guerra no Cáucaso
O mundo foi testemunha em Agosto
de uma mini-guerra no Cáucaso, e a retórica foi apaixonada, mas em grande parte
irrelevante. A geopolítica é uma gigantesca série de jogos de xadrez, no qual
os dois jogadores procuram obter vantagem de posição. Neste jogos, é crucial
saber as regras que regem os movimentos. Os cavalos não podem andar na
diagonal.
De 1945 a 1989, o principal jogo
de xadrez era travado entre os Estados Unidos e a União Soviética. Chamava-se
Guerra Fria, e as regras básicas eram metaforicamente chamadas de “Yalta”. A
regra mais importante referia-se à linha que dividia a Europa em duas zonas de
influência. Winston Churchill chamava-a de “Cortina de Ferro”, e ia de Stettin
a Trieste. A regra estabelecia que, fosse qual fosse o tumulto instigado na
Europa pelos peões, não haveria guerra entre os Estados Unidos e a União
Soviética. E no final de cada instância de tumulto, as peças deviam voltar
aonde estavam no início. Esta regra era observada meticulosamente até ao
colapso dos comunismos em 1989, que foi marcado pela destruição do Muro de
Berlim.
É verdade, como toda a gente
observou na época, que as regras de Yalta foram revogadas em 1989, e que o jogo
entre os Estados Unidos e (a partir de 1991) a Rússia mudou radicalmente. O
principal problema desde então é que os Estados Unidos não compreenderam as
novas regras do jogo. Autoproclamou-se, e foi proclamado por muitos outros,
como a única superpotência. Em termos de regras de xadrez, a interpretação era
que os Estados Unidos podiam mover-se por todo o tabuleiro como quisessem, e em
particular transferir os ex-peões soviéticos para a sua esfera de influência. Sob
Clinton, e de forma mais espectacular sob George W. Bush, os Estados Unidos
passaram a jogar desta forma.
Só havia um problema: os Estados
Unidos não eram a única superpotência; já nem havia sequer superpotências. O fim da Guerra Fria
significava que os Estados Unidos tinham sido rebaixados de uma das duas
superpotências para serem um estado forte numa distribuição verdadeiramente
multilateral do poder real no sistema inter-estados. Muitos países grandes
podiam agora jogar o seu próprio jogo de xadrez sem esclarecerem os seus movimentos
a uma das duas anteriores superpotências. E começaram a fazê-lo.
Duas importantes decisões
geopolíticas foram tomadas nos anos Clinton. Primeiro, os Estados Unidos
pressionaram fortemente, e com mais ou menos sucesso, pela incorporação dos
anteriores satélites soviéticos à NATO. Estes próprios países estavam ansiosos
por entrar, apesar de os países-chave da Europa ocidental – a Alemanha e a
França – estarem de certa forma relutantes de seguir este caminho. Viram a
manobra dos EUA como estando em parte dirigida contra eles, procurando limitar
a sua recém-adquirida liberdade de acção geopolítica.
A segunda decisão importante dos
Estados Unidos foi tornar-se um agente activo nos realinhamentos de fronteiras
no interior da ex-República Federal da Jugoslávia. Isto culminou numa decisão
de apoiar, e impô-la com as suas tropas, a secessão de facto do Kosovo da Sérvia.
A Rússia, mesmo sob Yeltsin,
ficou muito descontente com estas acções dos EUA. Contudo, a desordem política
e económica da Rússia durante os anos de Yeltsin era tal, que o máximo que ele
podia fazer era queixar-se, e de forma muito fraca, acrescente-se.
A chegada ao poder de George W.
Bush e de Vladimir Putin foi mais ou menos simultânea. Bush decidiu impor a
táctica da superpotência solitária (os Estados Unidos podem mover as suas peças
da forma que só a eles cabe decidir) muito mais longe do que fizera Clinton. Primeiro,
Bush em 2001 abandonou o Tratado Anti-Mísseis Balísticos firmado em 1972 entre
a União Soviética e os Estados Unidos. Depois, anunciou que os Estados Unidos
não ratificariam dois novos tratados assinados nos anos Clinton: o Tratado
Abrangente de Proibição de Testes Nucleares (Comprehensive Test-Ban Treaty) de
1996, e as modificações acordadas no tratado de desarmamento nuclear SALTII. Em
seguida, Bush anunciou que os Estados Unidos iam avançar com o seu sistema
Nacional de Defesa de Mísseis.
E, é claro, Bush invadiu o Iraque
em 2003. Como parte deste envolvimento, os Estados Unidos pediram e obtiveram
direitos de instalar bases militares e de sobrevoar as repúblicas da Ásia
Central, que antes eram parte da União Soviética. Além disso, os Estados Unidos
promoveram a construção de oleodutos para o petróleo e o gás natural da Ásia
Central e do Cáucaso que contornariam a Rússia. E, finalmente, os Estados
Unidos entraram em acordo com a Polónia e a República Checa para instalar
mísseis defensivos, alegadamente para se defenderem de mísseis iranianos. A
Rússia, porém, olhou-os como sendo
dirigidos contra ela.
Putin decidiu resistir de forma
muito mais efectiva que Yeltsin. Como jogador prudente, contudo, o seu primeiro
movimento foi reforçar a própria casa – restaurando a autoridade central e
revigorando o Exército russo. Neste ponto, a maré da economia-mundo mudou, e a
Rússia subitamente tornou-se um rico e poderoso controlador não só da produção
petrolífera como também do gás natural que tanto necessitam os países europeus
ocidentais.
Em seguida, Putin começou a agir.
Fez tratados com a China. Manteve relações estreitas com o Irão. Começou a
empurrar os Estados Unidos para fora das suas bases na Ásia Central. E assumiu
uma postura muito firme contra a ampliação da NATO a duas zonas-chave: a
Ucrânia e a Geórgia.
A ruptura da União Soviética dera
origem a movimentos secessionistas em muitas anteriores repúblicas, incluindo a
Geórgia. Quando a Geórgia em 1990 procurou acabar com o estatuto de autonomia
das suas zonas étnicas não-georgianas, estas prontamente se proclamaram estados
independentes. Não foram reconhecidas por ninguém, mas a Rússia garantiu a sua
autonomia de facto.
O estímulo que detonou a actual
mini-guerra foi duplo. Em Fevereiro, o Kosovo transformou a sua autonomia de facto em independência de jure. A sua decisão foi apoiada e
reconhecida pelos Estados Unidos e por muitos países da Europa ocidental. A
Rússia advertiu na época que a lógica desta decisão aplicava-se igualmente às
secessões de facto nas ex-repúblicas
soviéticas. Na Geórgia, a Rússia decidiu imediatamente, pela primeira vez,
autorizar o estabelecimento de relações directas com a Ossétia do Sul e a
Abkházia, em resposta directa à decisão do Kosovo.
E, em Abril deste ano, os Estados
Unidos propuseram numa reunião da NATO que a Geórgia e a Ucrânia fossem
recebidas num chamado Plano de Acção para Adesão à Aliança (Membership Action
Plan). A Alemanha, a França, e o Reino Unido opuseram-se, dizendo que seria uma
provocação à Rússia.
O presidente neoliberal e
fortemente pró-americano da Geórgia, Mikhail Saakashvili, ficou desesperado. Viu
que a reafirmação da autoridade georgiana sobre a Ossétia do Sul (e a Abkházia)
estava perdida para sempre. Assim, escolheu um momento de desatenção da Rússia
(Putin nas Olimpíadas, Medvedev de férias) para invadir a Ossétia do Sul. Claro
que o insignificante exército da Ossétia do Sul entrou completamente em
colapso. Saakashvili esperava forçar a mão dos Estados Unidos (e também da
Alemanha e da França).
Em vez disso, o que obteve foi
uma resposta militar imediata da Rússia, sobrepujando o pequeno exército
georgiano. O que obteve de George W. Bush foi retórica. O que podia Bush, no
fim de contas, fazer? Os Estados Unidos não eram uma superpotência. As suas
forças armadas estavam presas em duas guerras perdidas no Médio Oriente. E, o
mais importante de tudo, os Estados Unidos precisavam da Rússia mais que a
Rússia precisava dos Estados Unidos. O ministro dos Negócios Estrangeiros da
Rússia, Sergei Lavrov, observou designadamente num artigo de opinião no Financial Times que a Rússia era um
“parceiro com o Ocidente no... Médio Oriente, no Irão e na Coreia do Norte”.
Quanto à Europa ocidental, a
Rússia controla, no essencial, as suas reservas de gás. Não por acaso, foi o
presidente Sarkozy da França, e não Condoleezza Rice a negociar a trégua entre
a Geórgia e a Rússia. A trégua incluiu duas concessões essenciais da Geórgia,
que se comprometeu a não usar mais a força na Ossétia do Sul, e o acordo não
continha referências à integridade territorial georgiana.
Assim, a Rússia emergiu muito
mais forte que antes. Saakashvili apostara tudo o que tinha e estava agora
falido geopoliticamente. E, como irónico rodapé, a Geórgia, um dos últimos
aliados dos EUA na coligação no Iraque, retirou de lá os seus 2.000 militares. Estas
tropas vinham a desempenhar um papel crucial nas áreas xiitas, e tiveram de ser
substituídas por tropas dos EUA, que tiveram de ser retiradas de outras áreas.
Quando se joga o xadrez
geopolítico, é melhor conhecer bem as regras, ou é-se enganado.
Immanuel Wallerstein
Tradução de Luis Leiria
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Estes comentários, publicados
bimensalmente, são reflexões sobre o cenário do mundo contemporâneo, visto
de uma perspectiva não imediatista, mas de longo prazo.
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