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Commentário 241, 15/9/2008
A nova ordem geopolítica mundial: fim do primeiro acto
Seria um erro subestimar a
importância do acordo de 8 de Setembro entre Nicolas Sarkozy, da França, na
função de actual presidente da União Europeia (UE) e Dmitri Medvedev,
presidente da Rússia. Marca o fim definitivo do primeiro acto da nova ordem
geopolítica mundial.
Que foi decidido? Os russos
concordaram em retirar todas as suas tropas do que chamaram de “áreas centrais
georgianas”, ou “Geórgia propriamente dita”, isto é, aquelas partes da Geórgia
que os russos reconhecem como Geórgia. Estas tropas estão a ser substituídas
por 200 monitores da UE. Isto é feito com base em garantias dadas pela UE de
que não será usada força contra a Ossétia do Sul e a Abkházia.
A questão do reconhecimento pela
Rússia da independência da Ossétia do Sul e da Abkházia foi deixada
inteiramente em aberto. Sarkozy e o ministro dos Negócios Estrangeiros da UE,
Javier Solana, “esperam” que a Rússia venha no futuro a permitir a entrada de
monitores da UE nestas duas áreas. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia,
Sergei Lavrov, disse que a Rússia não prometera nada disso e que “todos os
acordos sobre futuros monitoramentos irão exigir a ratificação dos governos da
Ossétia do Sul e da Abkházia”. Lavrov disse que as tropas russas irão
permanecer nas duas áreas “no futuro previsível”. E o secretário do Conselho de
Segurança Nacional da Geórgia, Alexander Lomaia, ao mesmo tempo que aplaudia as
claras directivas de retirada russa da Geórgia propriamente dita, notou que “as
más notícias são que [o acordo] não se refere à integridade territorial [da
Geórgia]”.
Este acordo foi firmado entre a
Europa e a Rússia, e os Estados Unidos não desempenharam qualquer papel
diplomático. Medvedev acusou os Estados Unidos de terem dado a benção à acção
original da Geórgia de entrar na Ossétia do Sul. Disse que, em contrapartida,
os europeus são “os nossos parceiros naturais, os nossos parceiros-chave”. O
presidente da Geórgia recebeu um forte encorajamento de John McCain, e o
vice-presidente Cheney voou para lá para dizer que os Estados Unidos vão dar
mil milhões de dólares de ajuda para a reconstrução da Geórgia. Mas o
secretário de Defesa Robert Gates, explicando por que esta ajuda não incluiria
apoio militar e por que não haveria sanções económicas contra a Rússia, disse
que “se agirmos com demasiada precipitação, podemos ser nós a ficar isolados.”
Qual é a questão central? A
Rússia obteve mais ou menos o que queria na Geórgia. O seu “irrevogável”
reconhecimento da Ossétia do Sul e da Abkházia pode bem ser algo a ser
negociado no futuro, em troca de uma reviravolta das relações da Geórgia com a
Rússia. Se não, não. O facto é que a Europa acredita que precisa fazer as pazes
com a Rússia, e descartou a possibilidade de renovar o que os chineses chamam
de “guerra civil europeia”.
Os Estados Unidos descobrem que
não têm cartas reais para jogar. Entretanto, no Médio Oriente, os EUA vêem-se
publicamente rejeitados pelos seus aliados mais próximos. No Iraque, o
primeiro-ministro al-Maliki está a ser um negociador muito duro em relação à continuada
presença das tropas dos EUA, e não é impossível, salvo se não houver maiores
concessões da Casa Branca, que os actuais acordos, que terminam em 31 de
Dezembro, simplesmente expirem.
No Afeganistão, o presidente
Karzai está tão exasperado com as missões de bombardeamento das tropas
especiais americanas que pediu “uma revisão da presença dos EUA e das tropas da
Nato no país”, no que a CBS News chama “uma declaração de palavras duras”. A
provocação imediata foi um raid aéreo em Azizabad, que o Exército dos EUA disse
que teve poucas baixas e que atacou um grupo taliban. Os afegãos insistiram que
não havia talibans no local e que morreu um grande número de civis. Quando os
representantes da ONU e outros deram credibilidade à versão afegã, o principal
general dos EUA no Afeganistão, David McKiernan, voltou atrás na posição
americana e pediu uma investigação dos EUA ao mais alto nível, feita por um
general que viria dos Estados Unidos.
E, no Paquistão, o presidente
Bush autorizou a perseguição das tropas americanas aos taliban do Afeganistão
ao Paquistão, contra a opinião do Conselho de Informações Nacionais (National
Intelligence Council), que disse que correria um “alto risco de mais
desestabilização dos militares e do governo paquistanês”. A incursão trouxe o
que o New York Times chamou de “uma
declaração excepcionalmente forte”, proferida pelo chefe do Exército
paquistanês, general Ashfaq Kayani, que disse que as suas forças vão defender a
soberania paquistanesa “a todo o custo”. Como o governo dos EUA tem vindo a
considerar o general Kayani o seu mais forte apoiante no Paquistão, isto não
foi exactamente o que os Estados Unidos estavam à espera de ouvir.
Assim, ignorados na Geórgia e sob
o ataque dos seus mais próximos aliados no Iraque, no Afeganistão e no
Paquistão, os Estados Unidos estão de forma pouco feliz a entrar nas realidades
do mundo pós-Guerra Fria, no qual têm de jogar de acordo com novas regras que
parecem estar a achar bastante pouco palatáveis.
Entretanto, como uma irónica mas
importante nota de rodapé, em 10 de Setembro, um acontecimento da maior
importância no campo da física de partículas foi comemorado em Genebra, quando
o laboratório europeu chamado CERN obteve um avanço científico revolucionário
depois de 14 anos de trabalho e oito mil milhões de dólares de gastos. Foi um
momento tão importante da ciência mundial que os seus colegas dos EUA do
Fermilab em Batavia, Illinois, abriram as garrafas de champanhe às 4h38 da
madrugada para comemorar. Não obstante, Pier Oddone, o director do Fermilab,
admitiu que este era um “momento agridoce”. Até 1993, os Estados Unidos ditavam
as regras na física de partículas. Nesse ano, o Congresso dos EUA, cheio de
auto-confiança de ter “ganho” a Guerra Fria, achou que era demasiado caro – e
que já não era geopoliticamente necessário – construir o tipo de acelerador de
partículas necessário para este novo avanço da física de partículas. Os
europeus tomaram uma decisão diferente, e os Estados Unidos hoje encontram-se,
também aqui, no segundo lugar.
Chamo a isto o fim do primeiro
acto, porque selou a realidade de uma verdadeira arena geopolítica
multilateral. É claro que ainda estão para vir outros actos. E qualquer pessoa
que aprecia teatro sabe que o primeiro acto apenas estabelece quem são os
actores. É no segundo acto que vemos o que realmente acontece. E depois há o
terceiro acto, o desenlace.
Immanuel Wallerstein
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Estes comentários, publicados
bimensalmente, são reflexões sobre o cenário do mundo contemporâneo, visto
de uma perspectiva não imediatista, mas de longo prazo.
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